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Água

Foto do escritor: Sara Carneiro
Sara Carneiro
5 de set. de 2022
2 min de leitura

Atualizado: 9 de set. de 2022

Neve…

Tão incrivelmente surpreendedora,

tão avassaladoramente nostálgica.


Sinto-me neve desde os meus 18, consciente de que daqui a dois tenho 20 e que a infância me passou ao lado sem eu pensar muito que um dia já não vou ser criança.


Pensei em crescer, ter a minha casa, perspetiva de vida, os meus sonhos independentes dos meus medos presentes, acho que ser jovem é inerente ao meu espírito… mas nunca me ocorreu que eu não seria nova…

Que um dia vou perder os meus pais e vou ganhar amores que ainda não conheci, que me vou arrepender de não ter falado menos e ter dito mais, de ter sido fraca em certos momentos e de ter amado tão pouco quem merecia mais.


Vou amar mal quem me ama bem e amar bem quem assim tanto não me ama…

Pensar que sou anormal por sentir demais ou não sentir de todo e achar incrível que os que isto lêem se sentem assim também.


Vou sofrer, e sentir tanta felicidade no resto de vida que me falta.

Estou disposta a sofrer e a ser feliz e a sentir-me cinzenta de tão pouco sentir, tudo para aproveitar a oportunidade de estar presente.


A oportunidade de comer maçãs verdes e cheirar malmequeres e me rir de crianças que fazem birras à frente de toda a gente…


De chorar por ter magoado alguém e aprender que as minhas ações não só têm poder sobre os outros, como que magoar alguém me afeta também…


Sentir o pêlo de gatos vadios na ponta dos dedos e saber de antemão que eu vou considerar levá-los a todos comigo e criá-los como meus.


Sentir saudades de pessoas e sítios…sabores, cheiros e texturas…

De temperaturas contrastantes num só sítio e chorar de agonia, de saber que sou capaz de amar ao ponto de sofrer pela perda de alguém, saber que ponho em uso o coração que outrora era de outrem..


Tenho medo de me perder em pessoas e expectativas, mas confio em mim a capacidade de amadurecer com humildade, bondade e delicadeza.


Sinto que preciso de tempo sozinha, pensar no meu carácter, na minha forma de agir, eu devo-me bons valores para aproveitar uma boa vida.


Vou envelhecer de forma que me orgulhe, que me faça sorrir ao pensar na pessoa em que me tornei…


Vou aprender a viver.

Eu sou neve e como tal, tornar-me-ei água com o tempo…

 
 
 

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